Venho de estranhas árvores antigas:
londrinos plátanos, eretos maricás,
longilíneas palmeiras holandesas…
e o mais tradicional dos baobás.
Direis de mim: é louca e mentirosa;
se apoia nessa coisa fantasiosa,
seus direitos, liberdades da poesia.
Semeia pelo mundo, escandalosa,
se arvorando escrever em verso e prosa
contra-sensos naturais a cada dia.
Quem me conhece, entanto, compreende
quão verdadeira eu sou sobre esta história .
Faltam-me outras árvores à memória
mas a verdade permanece a quem me entende.
E é por isso que hoje estou aqui,
a reverenciar o velho baobá
plantado pelo avô de minha mãe,
enraizado aqui, em Paquetá.
Quanta gente passou à sua sombra !
Quanta gente parou, olhou, marcou ,
feriu o tronco que a todos assombra
pelo tamanho e aqui deixou
“para sempre” gravado seu recado
ora de amor sincero, ora encantado,
apenas pelo impulso de deixar
seu  nome “para sempre” eternizado
no tronco deste velho baobá.
Não passa na cabeça dessa gente
que a árvore não fala mas que sente
os cortes que a vêm desfigurar,
que mesmo que ela viva mais  que a gente ,
nem ela é permanente ,
e um dia, no  futuro, irá tombar.
Não são as árvores o que permanece.
Das atitudes é que não se esquece.
Dos gestos, das palavras. Dos princípios.
São eles que eternizam na verdade .
São eles traduzindo a qualidade
de uma existência honrada e sem vícios.
Dizem que em Paquetá, à lua cheia ,
as obras dos cientistas, dos artistas, dos poetas,
são murmuradas pelas águas inquietas
marulhando aos que as ouvirem, sobre a areia.
O velho Caetano, eu posso vê-lo,
na sombra deste imenso baobá :
os óculos, o branco do cabelo,
a voz que intuo firme e carinhosa
e as marcas do estudo e da bondade
que saem de seu rosto e se enraízam
no solo da pequena Paquetá…

Marcia Agrau

MARCIA AGRAU –  Diretora da APPERJ – Associação Profissional de Poetas do Estado do Rio de Janeiro. Tesoureira da UBE/RJ – União Brasileira de Escritores. É membro do SEERJ, da SPOC, do Círculo de Poetas Lusófonos de Paris, da Associação “Actes de Présence” (Paris). Coordenou e apresentou pela SPOC o projeto “Versos Noturnos”, tendo também coordenado, apresentado e participado de inúmeros recitais poéticos realizados por essa sociedade e criado, coordenado e apresentado o projeto “Espalhando Poesia” com J.J. Germano. Autora dos livros de poesia “Canto Nu dos Meus Recantos”, “Sob o Signo da Lua”, “A cabeceira dos anjos”, coautora de “Cinco Damas de Ouros” e do livro de conto “A faca e o brinco”, no prelo o romance “Cobertor azul”. Realizou programas de literatura na Rádio Imprensa FM a convite de Eunice Khoury.

Conheça o acervo poético do III FLAMTEC : https://flamatec.nossopapel.org.br/poesia/

..

..